
O diagnóstico de um tumor cerebral feito ao neto, então com sete anos, virou do avesso a vida de Adelaide Passos. Dois anos depois, vestiu-se de coragem e publicou O Céu Pode Esperar, a história de uma luta com final feliz. Ao mesmo tempo iniciou uma campanha de angariação de fundos para a investigação.
"Vistam-se de esperança e acreditem numa vitória"
- João Lobo Antunes refere que o livro que escreveu "deveria estar no cânone das obras que revelam a medicina na sua totalidade humana". Da sua experiência, acha que essa dimensão é tida em conta?
- Penso que tem de imperativamente ser tida em consideração pelos profissionais de medicina. É o ser humano na sua totalidade que se entrega nas suas mãos e que procura alívio. Daí que não só o corpo tenha de ser curado, mas também esse imaterial, por vezes esquecido e incompreendido.
- É possível habituar-se "à normalidade do anormal da doença"?
- Sim, é possível simplesmente porque não há outra alternativa se se quer sobreviver durante o período da doença. A revolta constante ou o desânimo são inimigas da cura e as mães acabam por perceber isso. A aceitação da dor do filho nunca é plena numa mãe do IPO, mas chega a ser dominada o suficiente para ter a dimensão necessária para que o filho a sinta calma e confiante e nela vá beber a esperança para enfrentar os tratamentos.
- O diagnóstico de cancro é sempre difícil, ainda mais tratando-se de uma criança. Como processaram a notícia?
- De início ouvimos a notícia, mas o nosso ser mais íntimo não tem ainda a capacidade de vislumbrar a dimensão do inferno que será o nosso caminho e por isso a dor vem, mas não aquela tão profunda como a que aflige durante o período do tratamento.
- Que conselho daria a quem agora enfrenta o mesmo?
- É muito difícil dar conselhos a quem recebe uma notícia dessas. Sabe-se que nada do que se possa dizer irá mesmo aliviar a dor do momento. Quem por estes momentos de dor passou tem a clara noção da impotência no alívio da dor da notícia. Compreende-se mais tarde que essa revolta e indignação pela injustiça que testemunhamos a nada irá levar. Mais tarde virá o momento em que se entende que o tempo é de espera e que a criança precisa da força interior dos pais e avós para a ampararem durante essa longa batalha pela sua vida. A medicina deu grandes passos na cura dos tumores malignos e por isso vistam-se de esperança e acreditem numa vitória.
- Porque é que decidiu escrever o livro, optando por tornar públicos períodos tão difíceis?
- Para poder chegar ao íntimo de outras mães que sofrem com crianças profundamente afectadas pela mesma doença ou outra similar. Para que elas possam ter uma referência honesta e humilde de quem também sofreu esses tormentos. Mas... na vida por vezes só muito mais tarde entendo porque fiz determinadas coisas e algo me diz que irei ainda perceber melhor porque me vesti de coragem e publiquei o livro.
- "Nunca se esquecem as lições aprendidas na dor." Que lições foi possível tirar?
- A maior lição é de que a vida é o bem mais precioso que nos foi dado. Dessa lição vêm todas as outras: gratidão pelo que temos; reconhecimento da beleza das coisas, valor da humildade...
- O que mudou na vossa vida com esta experiência?
- Na aparência absolutamente nada. Na interioridade muito. Fez-nos reflectir nos nossos valores, fez-nos humildes, mais profundos na compreensão dos outros e deu-nos uma maior aceitação de nós mesmos, das nossas limitações.
