Tudo nasceu de uma troca de emails. Durante meses Adelaide Passos foi contando às amigas o que se ia passando com os tratamentos do neto, diagnosticado aos sete anos com um tumor cerebral. Nicky, hoje com nove anos, começou por ter indisposições e dores de cabeça. Pensou--se que fosse uma gastroenterite até os médicos descobrirem um tumor cerebral, a forma meduloblastoma que é a mais comum nas crianças. Foi operado e seguiu--se um ano e meio de quimio e radioterapia e, por fim, a remissão. Os testemunhos acabaram por desenhar a história que hoje chega às livrarias. Além de lembrar o caminho de Nicky, o livro é a base de uma campanha para angariar 100 mil euros para a criação de um banco pioneiro de tumores cerebrais no Instituto Molecular de Medicina de Lisboa, em parceria com o IPO e o Hospital de Santa Maria.

Adelaide Passos, antiga consultora da Deloitte (também parceira na campanha) diz que nunca tinha pensado em escrever um livro, mas pareceu-lhe natural retribuir à sociedade o investimento no tratamento do neto. Apesar de sentir que os médicos conheceriam bem o diagnóstico de meduloblastoma, viu a necessidade de compreender melhor as diferenças nos tumores, para poderem escolher terapias mais individualizadas. 

Através do neurocirurgião João Lobo Antunes, presidente do Instituto de Medicina Molecular (IMM) em Lisboa, soube que havia um projecto na gaveta destinado a estudar as bases comuns dos cancros cerebrais e as diferentes vias moleculares envolvidas na doença, que poderão levar a novos medicamentos. Era a oportunidade perfeita, diz. “Em Portugal ainda não é muito comum, mas por exemplo nos EUA há muitos casos de pais e avós agradecidos que decidem fazer alguma coisa. Investir na investigação científica tem um retorno enorme, qualquer mínima descoberta pode ajudar muitas pessoas.”

 

Alternativa ao estado Além dos direitos do livro “O Céu pode Esperar”, a campanha terá uma conta para donativos. Maria do Carmo Fonseca, directora do IMM, explica que a ideia é recolher o maior número de tumores possível já a partir de 2012. Além de estar disponível para os cientistas portugueses este banco vai poder ser usado por equipas internacionais, dado que é um dos primeiros focado em tumores cerebrais. Além dos 100 mil euros iniciais com que esperam comprar equipamento, há já uma especialista portuguesa a fazer formação no Labbat Brain Tumor Research Center, em Toronto, um dos centros mais conceituados nesta área e que irá colaborar no projecto. 

“É uma experiência pioneira e vai servir para sensibilizar a população para a necessidade de investir em ciência como forma de alargar as competências da comunidade médica”, explica a investigadora. Sobretudo numa altura de retracção nas verbas públicas – o orçamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que financia projectos de investigação, foi reduzido em 10% e é o mais baixo dos últimos seis anos. “É uma nova perspectiva de como financiar ciência em Portugal.”  

 

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